terça-feira, 13 de setembro de 2011

Pedaços


Não vejo o sol entrando no meu quarto
Não vejo mais as suas fotos no porta retrato
Não vejo o futuro vir belo
Vejo agora todos os meus dias insertos

Desenhe algo belo me usando de rascunho
Molde algo com o que tirou de mim
Mostre o que sou montando meus retalhos
E me desmonte com seu desdem

Copos de café cortam minha noite
Juntam o que resta de sanidade
Tiram pra dançar a minha sorte
A cada estalo seco, a cada estalo seco, a cada estalo seco...

sábado, 10 de setembro de 2011

Pierrot


Chuva corta sonhos como navalha no papel
Cacos de vidro cortam meus pés
Rumando sem destino pela noite
Me levam aonde mulheres vendem libido

Compro mentiras a preço de ouro
Seu jeito doce embalado no perfume barato
Um sentimento torpe já me satisfaz
Com o gosto de uma fruta amarga

Faça meus desejos realidade
Que meus sonhos sejam possíveis com você
E seu perfume suma embaixo da chuva
Levando contigo tudo o que sou

Parasita


Caem entre seus pés os meus desejos mais íntimos
Colhidos dos meus pensamentos mais moribundos
Deixando escapar palavras de minha boca
Enquanto em seu pescoço faço a minha morada

Me apoio em seu ombro como quem não quer nada
Mas arranco de ti tudo o que desejo
Feito esse, com o meu olhar de malícia junto ao desespero
Fazendo você derreter e me queimar

Vicio cada parte do seu corpo ao meu toque
E faço você querer me consumir
Até tornar a sua ânsia a mais pura ganância
E como minha presa perecer

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Vício


Que tudo se esvaia
Transforme lagrimas em poeira
Queime almas e sonhos
E se desfaça sobre o vidro

Roube minhas palavras
Venda meu eu
Cale meu canto
E escureça o amanhã

Torne-me fraco como minhas pernas
Lento como meus pensamentos
Escuro como minha alma
Me deixe frio como meu coração

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Noite

 Minha alma queima pelo asfalto
Banhado pelas luzes e sonhos roubados
Fazendo derreter sorrisos sinceros
Roubando aquilo que nos faz crer

O tempo que tira a inocência
Entrega decepções atrás de cada porta
Mas acredito em você se acreditar em mim
Mesmo que a verdade possa nos matar

E se a luz que cega é a que nos guia
Mostra cada corte que você esconde
Esconde seus defeitos em cada sombra
Só não me esqueça nos braços da sua lembrança

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O vento

Vento forte sopra para longe as minhas angústias
Juntos de resquícios de um coração
Levando comigo tudo o que importa
E lembrando junto a ti o que me consome



Queria extinguir o meu desejo
Sempre com a libido em meu olhar
Mais o seu cheiro está impregnado em mim
De forma frágil me faz ajoelhar



Bate em meu peito e transparece em minha face
A falta, a dor e o pranto de alguém que ama
E me deixa assim em abstinência
Para sempre me julgar a cada vez que amanhecer

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Guia básico de como viver a sua vida.


 Vejo que não consigo mais sentir a terra sob os meus pés, ouvir o vento passar rápido pelas minhas orelhas enquanto pedalo por entre as árvores, sentir o cheiro de sal vindo do mar e olhar o céu em tons de laranja... amarelo... roxo e finalmente o azul, a cor que mais traduz o que espero e quero da minha vida, que é paz.
 Tudo que sinto agora é o toque da meia e aquele velho incomodo no dedo mindinho do pé esquerdo causado por aquele sapato apertado, me irritar com as buzinas e gritos histéricos por onde eu andar, sentir os meus pulmões totalmente cheios com a fumaça do meu cigarro e a poluição dos carros, e ver que nem a lua se sobressai nas noites cinzas cobertas pelos prédios.
 Confio minha sanidade a alguém que me ouve desabafar 1 hora por dia, durante 2 dias por semana, e recebe digamos que bem para isso. Ele me mostra que mais fácil seria eu vir com um manual de fábrica, faz eu me olhar e parecer que sou ignorante e cego, como se não reconhecesse a minha própria face no espelho. Depois de todo esse burburinho vou no bar encontrar meus amigos, também tão cegos quanto eu, e que se abraçam em volta de qualquer coisa que os livre da culpa, de só ter tempo para eles mesmos e para os outros quando estão dando um gole numa cerveja gelada, dando um tapa em um baseado, cheirando uma carreira ou consumindo pessoas descartáveis.
 Vejo que minha felicidade fútil é a única coisa me mantem vivo, que sem ela já teria me jogado do meu escritório, a pena que no máximo eu quebraria uma perna ou um braço, já que não posso estar no topo do prédio, aonde estão os diretores, gerentes, donos e filhos da puta em geral, que se alimentam basicamente da alma de pessoas fudidas como eu, e por isso se tornam ainda piores do que eu ou você, acho que a melhor explicação para isso partiu da minha vó com a velha frase "você é o que você come". Acho que a única coisa que os mantem vivos é que, no caso deles tentarem pular pela janela eles cairiam no estacionamento exclusivo, e com isso poderiam correr o risco de acertar seus carros de 200 mil dólares. 
 Queria poder comprar essa droga chamada felicidade também a cada esquina, isso evitaria me achar pior que todos, faria eu ver cores em vez de sombras e faria eu sentir o velho prazer que sentia nas coisas da minha infância, a diferença é que em vez de eu beber da fonte da vida eu deixei que a vida me sugasse, me tornando um cara de 30 anos solteiro, feliz por ganhar pouco, morando em um ovo que as pessoas geralmente chamam de apartamento, e ficar feliz por ter recebido todas as minhas horas extras esse mês, pagar todas as minhas contas e sobrar uma grana para eu comprar as coisas que me matam aos poucos, já que eu não tenho pressa mesmo.
 O que eu perdi no meio do caminho durante esses 30 anos? Perdi coragem pra enfrentar as coisas que eu achava erradas, perdi passeios no Ibirapuera nos domingos, perdi meu pai e logo em seguida minha mãe, perdi minhas noites de sono por causa de um relatório que eu precisava entregar, e por causa desse mesmo relatório deixei de sair com a minha vizinha, uma das mulheres mais lindas que já vi. Acordando cedo para ir trabalhar a vi chegando com outro cara, chegando do encontro que eu não fui, estavam aparentemente bêbados, saíram pelo elevador aos trancos, o que sobrou para mim foi um singelo "bom dia", a última noticia que tive dela foi que ela mora em búzios, casou com aquele cara, que digamos de passagem deveria ser eu, e tem 3 filhos lindos.
 O que a vida me ofereceu e eu tive medo de pegar... agora o que resta é abraçar essa vida que eu me acomodei a viver e aceitar a única certeza dela, de que nosso corpo não é eterno, mas se tivermos culhões o suficiente as nossas lembranças e feitos podem ser.