Vejo que não consigo mais sentir a terra sob os meus pés, ouvir o vento passar rápido pelas minhas orelhas enquanto pedalo por entre as árvores, sentir o cheiro de sal vindo do mar e olhar o céu em tons de laranja... amarelo... roxo e finalmente o azul, a cor que mais traduz o que espero e quero da minha vida, que é paz.
Tudo que sinto agora é o toque da meia e aquele velho incomodo no dedo mindinho do pé esquerdo causado por aquele sapato apertado, me irritar com as buzinas e gritos histéricos por onde eu andar, sentir os meus pulmões totalmente cheios com a fumaça do meu cigarro e a poluição dos carros, e ver que nem a lua se sobressai nas noites cinzas cobertas pelos prédios.
Confio minha sanidade a alguém que me ouve desabafar 1 hora por dia, durante 2 dias por semana, e recebe digamos que bem para isso. Ele me mostra que mais fácil seria eu vir com um manual de fábrica, faz eu me olhar e parecer que sou ignorante e cego, como se não reconhecesse a minha própria face no espelho. Depois de todo esse burburinho vou no bar encontrar meus amigos, também tão cegos quanto eu, e que se abraçam em volta de qualquer coisa que os livre da culpa, de só ter tempo para eles mesmos e para os outros quando estão dando um gole numa cerveja gelada, dando um tapa em um baseado, cheirando uma carreira ou consumindo pessoas descartáveis.
Vejo que minha felicidade fútil é a única coisa me mantem vivo, que sem ela já teria me jogado do meu escritório, a pena que no máximo eu quebraria uma perna ou um braço, já que não posso estar no topo do prédio, aonde estão os diretores, gerentes, donos e filhos da puta em geral, que se alimentam basicamente da alma de pessoas fudidas como eu, e por isso se tornam ainda piores do que eu ou você, acho que a melhor explicação para isso partiu da minha vó com a velha frase "você é o que você come". Acho que a única coisa que os mantem vivos é que, no caso deles tentarem pular pela janela eles cairiam no estacionamento exclusivo, e com isso poderiam correr o risco de acertar seus carros de 200 mil dólares.
Queria poder comprar essa droga chamada felicidade também a cada esquina, isso evitaria me achar pior que todos, faria eu ver cores em vez de sombras e faria eu sentir o velho prazer que sentia nas coisas da minha infância, a diferença é que em vez de eu beber da fonte da vida eu deixei que a vida me sugasse, me tornando um cara de 30 anos solteiro, feliz por ganhar pouco, morando em um ovo que as pessoas geralmente chamam de apartamento, e ficar feliz por ter recebido todas as minhas horas extras esse mês, pagar todas as minhas contas e sobrar uma grana para eu comprar as coisas que me matam aos poucos, já que eu não tenho pressa mesmo.
O que eu perdi no meio do caminho durante esses 30 anos? Perdi coragem pra enfrentar as coisas que eu achava erradas, perdi passeios no Ibirapuera nos domingos, perdi meu pai e logo em seguida minha mãe, perdi minhas noites de sono por causa de um relatório que eu precisava entregar, e por causa desse mesmo relatório deixei de sair com a minha vizinha, uma das mulheres mais lindas que já vi. Acordando cedo para ir trabalhar a vi chegando com outro cara, chegando do encontro que eu não fui, estavam aparentemente bêbados, saíram pelo elevador aos trancos, o que sobrou para mim foi um singelo "bom dia", a última noticia que tive dela foi que ela mora em búzios, casou com aquele cara, que digamos de passagem deveria ser eu, e tem 3 filhos lindos.
O que a vida me ofereceu e eu tive medo de pegar... agora o que resta é abraçar essa vida que eu me acomodei a viver e aceitar a única certeza dela, de que nosso corpo não é eterno, mas se tivermos culhões o suficiente as nossas lembranças e feitos podem ser.